quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Sentei-me perto da janela do quarto a fumar um cigarro e, consequentemente, o fumo começou a turvar o cenário já meio despido de lá de fora do pátio.
O Outono chegou, estamos no ano de 2018 e eu olhava para os meus dedos que seguravam o cigarro. Se pelo ritual se pela vontade. Ritual e vontade, de um pelo outro e o outro pelo um. Por entre a proximidade que os faz saberem-se e conhecerem-se, colocando ou não em causa a realidade de cada conceito sozinho ou em conjunto. Se antes, se depois. Comum porque só com ela; A proximidade.
Pus-me a ler sobre a teoria alemã da Gestalt, sobre a percepção da forma, de como o nosso cérebro conceptualiza a falta de elementos em fuzarca com o seu excesso de movimento no espaço de alcance ou, pela monotonia em blocos de figuras iguais. De como se parecem aproximar ou então criar uma harmonia conjunta para a nossa, pouco capaz, conclusão visual, de dissociar as peças entre si, que insiste em faze-las dançarem ou nos parecerem ordenadas segundo uma ordem leal de vizinhança pacata e silenciosa.
Seria certamente um tema para diarreiar de forma articulada numa outra altura, em que a verdade objectiva do encontro informal acontecesse. Por ora, a ideia de que a explicação é apenas um interesse elástico que sustenta sentimentos como a saudade, parece-me legitimada, arrogantemente, pela paz que não só da lógica dos anos que se passaram. E que continuam a passar.

Pro-xi-mi-da-de.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

de certo modo fui perseguido certa noite pelo lobo do hesse que em algumas palavras me disse mais asneira do que verdades

que verdades tão factuais, tão belíssimas quanto a ausência de luz numa câmara obscura de fotografia?

o desejo de andar em linha reta e ser desviado pelos pontos pretos michauxianos, obsoletos pelo descarrego de informação póstuma da minha lembrança quem apenas conseguiu existir, mas já existe além do porvir.

parvo

pouca certeza em cruzar um continente desfalecido que finge ser azul para não ser cinza, mitigando assim a navegação sobre as cinzas de uma morte cremada que nem sequer ocorreu.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sem título

Provavelmente, pediu-lhe para não deixar de escrever, como para não parar qualquer coisa que significasse respirar algo acrescido ao ar da cidade onde agora morava.
Mas M. tinha pouco imago de como poderiam as coisas dar-lhe enfarte para os pulmões, ou perplexão sanguínea que acrescesse ao seu corpo. A pressão ocular de tanto tempo só poderia significar que a irrigação líquida do seu íntimo vivia, mas talvez na busca de uma abordagem vã. Ver.
Vã. Vão o que teria para dizer. Fisicamente vão, porque a mais no mundo apenas sentir-se-ia o cadáver de uma coisa ainda para morrer, apenas à espera da tragédia.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

sendo

sendo este motivo tão acizentado,
uma frase, cinza, isso, cinza como o concreto sem verniz,
digamos que esse motivo lançado ao céu,
em contraste com o amarelo do verão,
possa ser de significado babaca,
o que é normal.

motivo cinza para um céu amarelo

um belo de um título para as almas que se engolem continuamente, e isto seria ser.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

não sou, sou

não sou honesto com meu desejo de superação.
não sou essa exatidão que chamam de criatividade esporádica e instantânea.
sou apenas a curva que leva para o precipício.
sou teu lado feroz que mordisca com raiva as cordas de uma viola.

não sou a palavra balbuciada pela tua boca quando acabas de acordar numa quarta-feira de merda.
não sou teu lençol, pano, coberta, segunda pele que te acompanha pela madrugada.
sou aquilo que não ousas dizer em público, em frente uma lousa, em frente à uma pátria.
sou o passo que esquecestes de dar em direção a angustia da permanência.

não sou a unha que coça tua nuca.
não sou a brisa que gira ante tua fronte.
sou o arrepio de andar numa praça imensa, vazia, em pleno dia de trabalho e contingência.
sou o quadro que tanto olhas na galeria mas não tens a mínima vontade de comprar.

não sou a meia que te aquece os pés.
não sou a letra que escreves numa pausa quase infinita numa madrugada de estrelas ardentes.
sou o murro em direção ao ar.
sou o charco que te espera no passeio, para lançar ao ar as pequenas gotículas esparsas e multidirecionais.

poderia dizer "pisa-me, vive-me, mescla-me"
poderia dizer "golpeia, monta, constrói, corrói, desmembra"
digo "respira" porque se você morrer numa costura atroz de submissão aos dias, vou ter que convocar meu pulmão para um escurecimento interior. e só agora descobri o que a imiscuição quer dizer, em sua profundidade e gravidade.

é, afinal, certos sentimentos fedem a loucura.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

P

E nem de propósito recebi hoje a tua carta. A bem do propósito que não existe quando se lhe tem vontade. Pois que faz de si amplo, sem imiscuição. Sendo.
Bem a propósito da eternização das palavras e retalhos de luz, que só a melancolia dos que querem segurar tudo, e não querendo possuír nada que não da roda do genérico, podem antever. Roda rosada.
E bem só esses tais se preocuparão com a irregularidade da dissemelhança, entre propósito e desígnio.

(Obrigada,
procurarei Leminski por aí)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

tombo





tombo,
lombo.

trombo,
trombone.

ombro,
assombro.